sexta-feira, 4 de novembro de 2011

ANDAIMES E PISTAS DE CONTEXTUALIZAÇÃO: Maria Alice Fernandes e Stella Maris Bortoni Ricardo



BORTONI-RICARDO, Stella Maris; FERNANDES DE SOUSA, Maria Alice. Andaimes e pistas de contextualização: um estudo do processo interacional em uma sala de alfabetização[1]. Disponível em: <http://mundoacademico.unb.br/professor/56/view=itemacervo&cod=369>. Acesso em: 05/07/06.


Resumo: Andaime é um termo metafórico que se refere à assistência visível ou audível que um membro mais experiente de uma cultura presta a um aprendiz, em qualquer ambiente social, ainda que o termo seja mais empregado no âmbito do discurso de sala de aula. Dois conceitos básicos subjacentes à noção de andaime são a zona de desenvolvimento proximal (zdp) de Lev Vygotsky, retomado por Jerome Bruner, e as pistas de contextualização, como propostas por John Gumperz, principal teórico da Sociolingüística Interacional. As ações de andaimes processam-se por meio de múltiplos traços lingüísticos e cinésicos. Andaimes em sala de aula assumem a forma de prefácios a perguntas, complementação do turno, canais de retorno, expansões, reformulações etc, que dão aos alunos oportunidade para reconceptualizações. A assistência por meio de andaimes em sala de aula pode vir do professor ou de pares. Neste texto, empregando alguns recursos da metodologia microetnográfica, segmentamos episódios de andaime na interação entre uma Professora de alfabetização e seus alunos de primeira série em uma escola pública Distrito Federal.

Palavras-chave: andaimes,  interação professor-alunos, zona de desenvolvimento proximal, pista de contextualização,  reconceptualização.

1. O conceito de andaime ou andaimagem (tradução de scaffolding do inglês) está baseado na tradição de estudos do discurso de sala de aula[2] e, da forma como é discutido neste capítulo, vai-se haurir em duas perspectivas acadêmicas, desenvolvidas respectivamente no âmbito da Psicologia e da Sociolingüística, a saber, a teoria sociocultural de língua e aprendizagem avançada pelo psicólogo russo Lev S. Vygotsky e a abordagem sociolingüística à interação humana, conhecida como Sociolingüística Interacional, cujas raízes se fundam nos trabalhos de John Gumperz (2003) e associados (cf. RIBEIRO E GARCEZ (orgs.), 2002). As referidas  perspectivas compartilham pelo menos dois pressupostos: 1 - a linguagem, e conseqüentemente a interação entre pessoas, são consideradas fundamentais no processo de aprendizagem e 2 – as ações humanas, incluindo-se aí a linguagem, constituem esforços construídos de forma cooperativa e conjunta pelos interagentes. 
Andaimes são um conceito metafórico que se refere a um auxílio visível ou audível que um membro mais experiente de uma cultura pode dar a um aprendiz. O trabalho de andaimagem é mais freqüentemente analisado como uma estratégia instrucional no domínio da escola, mas, de fato, pode ocorrer em qualquer ambiente social onde tenham lugar processos de sociabilização.
O termo foi introduzido pelo psicólogo norte-americano Jerome Bruner (1983), cujo principal interesse são as formas institucionais pelas quais a cultura é transmitida. Subjacente ao seu trabalho, releva-se a noção de zona de desenvolvimento proximal (zdp) avançada por Vygotsky (1987). Segundo esse autor, a zdp é o espaço entre o que o aprendiz pode realizar sem qualquer assistência e o que consegue mediante assistência de um par mais experiente. Há que se considerar ainda na teoria sócio-histórica legada por Vygotsky a ênfase nas relações interpessoais: a aquisição do conhecimento, como um atributo intrapessoal, processa-se por meio da ação  entre pessoas.
Outro conceito seminal na racionalidade subjacente à andaimagem é o de pistas de contextualização proveniente da Sociolingüística gumperziana. 
Para John Gumperz (2003), pistas de contextualização são quaisquer sinais verbais ou não-verbais que, processados juntamente com elementos simbólicos gramaticais ou lexicais, servem para construir a base contextual para a interpretação localizada, afetando assim a forma como as mensagens são compreendidas.
Esther Figueroa (1994, p.113), ao analisar a obra de Gumperz, apresenta uma interessante definição para pistas de contextualização: qualquer traço da forma lingüística que contribui para sinalizar aos participantes de uma interação que a comunicação está transcorrendo sem transtornos, facilitando-lhes a codificação e a interpretação de   finiçFigueroa (1994, um atributosua intencionalidade.
As pistas de contextualização transmitem-se por traços prosódicos (altura, tom, intensidade e ritmo); cinésicos (decoração facial, direção do olhar, sorrisos, franzir de cenho); e proxêmicos, todos eles recursos paralingüísticos que, juntamente com o componente segmental dos enunciados lingüísticos, são a principal matéria-prima de que se constituem os andaimes. Sendo assim a micro-análise das pistas de contextualização permite-nos uma descrição pormenorizada do trabalho de andaimagem. Note-se que as estratégias de andaimes são culturalmente específicas e podem variar muito em função de redes sociais, grupos étnicos ou culturais e comunidades nacionais.
Na tradição do discurso de sala de aula, os andaimes são associados com as iniciações de um ato de fala pelo professor e com suas avaliações das respostas dos alunos. Estamos considerando aqui o modelo tripartite: IRA – iniciação – resposta – avaliação, tradicionalmente usado na análise do discurso de sala de aula, proposto por Sinclair e Coulthard (1975), que se compõe de um turno de iniciação pelo professor – geralmente uma pergunta ou uma problematização, seguido sucessivamente da resposta dos alunos e da avaliação, correção ou expansão pelo professor. Observe-se também que os andaimes podem ser construídos na interação professor/alunos ou alunos/alunos. Uma característica básica do processo de andaimes é o estabelecimento de uma atmosfera positiva entre professor e alunos, por  meio de ações simples, como a de se ouvirem e se ratificarem mutuamente, como  aprendemos na Pedagogia de Paulo Freire. (cf. BORTONI-RICARDO, 2005).
Um trabalho de andaimagem pode tomar a forma de um prefácio a uma pergunta, de sobreposição da fala do professor à do aluno, auxiliando-o na elaboração de seu enunciado, de sinais de retorno (backchanneling), de comentários, reformulações, reelaboração e paráfrase e, principalmente, de expansão do turno de fala do aluno. Todas essas estratégias dão ao aluno a oportunidade de “reconceptualizar” o seu pensamento original, seja na dimensão cognitiva seja na dimensão de sua competência comunicativa. 
Cazden (1988) associa a reconceptualização ao turno de fala do professor reservado à avaliação, mas alerta para o fato de que esse turno não deve ser apenas um veredicto sobre a correção ou a incorreção da contribuição do aluno. Antes, é uma oportunidade de induzir os alunos a novas formas de pensar, de analisar, de categorizar e de falar. Segundo a autora há uma diferença crucial entre ajudar um aluno a dar uma resposta e ajudá-lo a atingir uma compreensão conceitual que lhe permitirá produzir respostas corretas e pertinentes em situações semelhantes no futuro.  

 2. No que se segue discutimos alguns exemplos de andaimagem recolhidos em uma turma de alfabetização durante a metade de um turno de aula, observado por ambas as autoras deste capítulo[3].
1  – A Professora escreve um provérbio no quadro: “O tempo é o melhor remédio”. Passa depois a discutir com a turma o significado do provérbio[4]. 
P – Falando para todos os alunos. Se um menino está triste porque está apaixonado e aí a mãe... (ela se aproxima de um aluno põe a mão em sua cabeça e começa a imitar uma mãe, consolando um filho que está triste).
A Professora reconceptualiza a idéia, movendo-se do plano abstrato do adágio para um plano concreto, ao contextualizar uma situação à qual se aplica o adágio: “O tempo é o melhor remédio”.  Como estratégias representa a mãe no gesto de afagar a cabeça de um aluno e na fala em que imita uma mãe dirigindo-se ao filho. Deixa que os próprios alunos construam a inferência: “A mãe está dizendo ao filho que não fique triste porque com o tempo ele vai-se esquecer de sua paixão”.  Transferir-se do plano abstrato do adágio para uma situação que provavelmente é familiar aos alunos, senão tanto pela experiência pessoal, mas pela experiência vicária, que já têm, por assistirem a novelas e filmes ou ouvirem narrativas, é uma estratégia clara de andaimagem, construída verbal e cinesicamente, quando  representa o comportamento da mãe.  
2 – A Professora convida os alunos para se sentarem no tapete sem sapatos; nomeia alguns alunos. P - Lucas e Gabriel... Alguém comenta que tem cheiro de chulé no ambiente. A Professora ouve o comentário e ratifica o aluno que o produziu, aduzindo um comentário pertinente: P – Vamos resolver esse problema do chulé.
Como bem mostra Paulo Freire (1997), a Professora ficar atenta ao que os alunos falam, indicando que os está escutando, é fundamental na interação de sala de aula.  O comentário da Professora é uma estratégia de andaime, ratificadora do aluno como falante primário, mesmo quando esse faz um comentário que poderia ser considerado impertinente naquela situação.
Depois de comentar com naturalidade a questão do chulé, a Professora continua a administrar a situação para que todos se acomodem.
3. P - Tem o Juliano, o Juliano chegou não tem nem um mês (acenando para um aluno) Gabriel, vem aqui me ajudar, vem. Bruno segura isso aqui pra  tia.
Com a estratégia de nomear dois alunos, dando-lhes instruções, ela os envolve na atividade.
4. Depois  retorna ao quadro para comentar os provérbios. P - Vamos relembrar, eu falei: Toucinho de porco não é tomada...Vou contar uma história para vocês tem gente que já conhece.
A palavra “relembrar” é uma pista de contextualização que a Professora usa para indicar aos alunos que vão retomar a atividade inicial da aula. Isso era importante como preâmbulo para a história, cujo título faz referência a um adágio popular: “Maria vai com as outras”. A transição entre os comentários de provérbios e expressões populares para a história configura estratégia de andaimagem. Observe-se que, na condução dessa atividade de transição, a Professora usa linguagem bem coloquial:  “tem gente ...”. Está de fato operando uma convergência de sua fala para o repertório usual das crianças e transmitindo uma pista de contextualização. Trata-se de recurso de andaimagem muito freqüente durante a sua aula.
5. Na seqüência, pega um livro e mostra: P - Sabe quem escreveu essa história?
A’s – Vinícius de Moraes... Monteiro de Moraes... Toquinho...
Os alunos tentam vários nomes que conhecem de escritores e compositores, trocam os nomes (Monteiro Lobato fica Monteiro de Moraes). A Professora os estimula, construindo um andaime com  meneios de cabeça que,  na nossa cultura, são um sinal de retorno indicativo de aprovação. Aceita todas as sugestões dadas pelos alunos, depois fornece a resposta.
6.P – Já veio história dela aqui, é  Sílvia Ortoff. Dá a informação e imediatamente continua o controle da atenção e participação de todos. Gabriel, Lucas, eu pedi para largar os ursinhos para a gente poder prestar atenção. Ela começa a narrativa, pega uma ovelha de pelúcia, mostra a ovelha. P -  essa é uma história de uma... (mostra a ovelha).
Ao permitir que os alunos complementem seu enunciado, a Professora está construindo um andaime, valendo-se de dois recursos: Usa entoação ascendente, inconclusa, e mostra-lhes uma ovelha de brinquedo.
A – Um leão.
A’s – Uma ovelha.
7. P – Ô Gabriel, tudo de leão, o Gabriel adora.
Diante da sugestão equivocada do aluno, a Professora não o critica abertamente. Usa, como andaime, um ato de fala indireto iniciado pelo marcador conversacional “Ô”, que é uma pista de contextualização e serve para marcar o aluno como ouvinte primário. Em seguida, faz uma observação positiva sobre o interesse do aluno pelos leões. Esta é uma forma de prestigiá-lo e cooptá-lo para atividade em curso. Cria assim as condições para que ele processe uma reconceptualização e  chegue à resposta correta.
8. P – Agora eu quero um pra ler o título da história, (estica o braço que está segurando o livro para enfatizar o convite).
 A’s – Eu, eu.
P – Mostra o livro e lê. P - Maria vai com as outras – Sílvia Ortoff – editora Ática. Mostra a referência à editora na capa do livro e diz aos alunos: P - que qué isso? Faz a pergunta e fornece imediatamente uma explicação sobre o que é uma editora. Propor a pergunta e imediatamente fornecer a resposta é uma pista de contextualização pela qual mostra aos alunos que eles estão construindo conjuntamente aquele discurso.
9.P – É uma das minhas preferidas... Melhoramentos e Editora Ática. É aonde a Sílvia Ortoff entregou o livro dela pra eles fazerem os desenhos, as letras.
Para explicar o que é uma editora, a Professora usa dois recursos de andaimagem: cita o nome de duas editoras e depois explica com palavras bem acessíveis o que é uma editora, retomando uma informação que ela já vinha passando aos alunos em aulas anteriores. Aqui, novamente, a convergência para a fala infantil configura uma pista de contextualização que implementa um andaime de incentivo para que os alunos são hesitem em contribuir com seus comentários.
10.P – Onde as outras ovelhas iam... Maria ia também...
Nesta seqüência, a Professora encerra cada fragmento da história com uma entoação ascendente, inconclusa, que é uma estratégia de andaimagem para pedir aos interlocutores que completem o enunciado:
11.P – As ovelhas iam pra cima...
A’s – Maria ia pra cima...
12. P – Maria ia sempre com as ...
A’s – outras.
13. P – Um dia as ovelhas foram para o Pólo Sul. O Pólo Sul é onde? Em cima ou embaixo? (faz gestos indicando para cima e para baixo).Na definição de “Pólo Sul”, a Professora usa uma  estratégia de simplificação, que é um andaime. Associa Pólo Sul ao conceito de “embaixo”. Mais tarde, as crianças certamente vão aprender que o Pólo Sul fica na parte inferior do globo terrestre. 
14.  P - Maria pegou gripe. Como é que elas faziam?
A’s – Atchim!
Motivar a participação das crianças é também um recurso de andaimagem, que lhes permite associar a doença “gripe” a um sintoma que lhes é familiar. Ajuda-os a manter seu status de co-narradores.
15. P – Todas as ovelhas iam para o deserto. (Procura no avental, que é um painel de várias cores e que funciona como um recurso para contar histórias, uma cor que possa representar um deserto.)
P -  Ai, que lugar quente! (abana-se).
A Professora não define deserto, limita-se a mostrar um ponto amarelado em seu avental-painel e faz o comentário: “Ai, que lugar quente”, abanando-se.
Com essa estratégia de andaime, reacende o envolvimento dos alunos e ativa seus conhecimentos prévios de esquemas cognitivos sobre o mundo, dando-lhes a oportunidade de inferir: Deserto é um lugar muito quente.  
16.P – Quando todas as ovelhas comiam jiló...
A’s – Maria comia também.
P – Todo mundo come, eu também como.
Aqui a Professora alterna a narrativa com comentários avaliativos relacionados à vida rotineira dos alunos. É, novamente, uma estratégia de andaime, que promove a condição dos alunos como co-narradores, garantindo a sua  atenção e envolvimento.
17. P – Retomando a leitura : “Maria suspirou”. Como é que é suspirar? (Os alunos suspiram).
Diante de item lexical que poderia ser desconhecido, a Professora usa como estratégia de andaime uma pergunta direta, que não precisa ser respondida verbalmente. Assim verifica se houve o entendimento dos alunos.
18. Uma criança toma o piso:
A – Eu já sei a história toda.
Observe-se que essa criança é proveniente de uma família mais letrada e geralmente tem mais informações que os demais alunos. A Professora a escuta, usando uma andaimagem de ratificação.  Não lhe rejeita a contribuição, todavia, como andaime, faz um comentário, um ato de fala que é de fato uma ponderação,  que julga necessária para mostrar à aluna que é comum  ouvirmos uma história ou  assistirmos a um filme mais de uma vez.
19.P – Já! Mas é bom ouvir uma história toda. Sabe quantas vezes eu já vi o mesmo filme? (Retoma a leitura). Até que as ovelhas resolveram pular do Corcovado. (Mostra a gravura). Quem sabe o que o é Corcovado? (Sem aguardar a resposta) explica: É um morro, lá tem um Cristo assim, (faz gestos com os braços abertos em cruz). Eu fui lá, tem um trenzinho e depois  um  monte de escadaria.
Nesta altura, como andaime, a Professora fornece uma explicação sucinta, mas o recurso aos gestos representando o Cristo Redentor parece ter  evocado nas crianças a imagem do Corcovado, que possivelmente já viram  na televisão ou em revistas. As crianças demonstraram, de fato,  ter compreendido bem o que é o Corcovado, pois, quando fizeram desenhos ilustrativos da parte da história de que mais gostaram, muitos desenharam o Corcovado próximo a uma lagoa. A seguir, a Professora faz mais comentários sobre o Corcovado e a Lagoa Rodrigues de Freitas e mostra-lhes a ilustração do livro.
20. P – Retomando a leitura. As ovelhas resolveram pular. Será que foram todas? Como é que a ovelha fala?
Como andaimes, a Professora encadeia duas perguntas. Na primeira, permitiu que as crianças refletissem sobre a resposta. Na segunda, usa o verbo “falar”, em vez de “balir”, possivelmente desconhecido das crianças.  Todas as crianças em uníssono imitam o balido das ovelhas, o que mostra que os recursos de andaimagem empregados pela Professora foram bem sucedidos.
A’s – Méééé...
21. P – Lendo. Pulava na pedra, não caía na lagoa, caía na pedra e chorava, quebrava o pé.
A – Xô vê, tia!
22.P – E assim Lucas, QUARENTA E DUAS ovelhas pularam.
A ênfase de Professora nos números e a nomeação de um aluno são recursos de andaimagem para manter ativada a atenção das crianças.
23.P – Retoma a leitura. Chegou a vez de Maria pular. Ela deu uma requebrada... Agora a requebrada é com você Gabriel. A Professora apóia as mãos nos joelhos e dá uma requebrada, que é imitada pelo aluno.
A pausa e os gestos ajudam a aumentar o suspense para o final da história. É um andaime para garantir que os alunos se sintam co-narradores e se mantenham atentos e interessados.
24. P – Lendo o desfecho da história. Ela entrou num restaurante e comeu uma feijoada. Agora vou deixar o avental pendurado todo mundo vai sentar. (As crianças retornam às carteiras).
25. P - Será que eu leio histórias aqui só para me divertir? Para que será que eu escolhi “Maria vai com as outras?”
Como estratégia de andaime, a Professora faz a pergunta que enseja a reflexão das crianças sobre o tema da história.
A – A senhora leu essa história para a gente aprender que se as pessoas tiverem fazendo coisa errada é pra gente não imitar.
26.P - O Gabriel Carvalho falou que eu trouxe a história aqui para mostrar, para ilustrar que a gente não deve imitar as coisas erradas.
A andaimagem aqui consiste em acatar a contribuição do aluno, que é bastante apropriada, reformulando-a ligeiramente, a fim de torná-la mais ajustada às normas gramaticais. Aproveita também para fornecer um sinônimo de “mostrar”.
27. Em seguida a Professora forma duplas de alunos para trabalharem juntos, de maneira a construírem andaimes uns para os outros.
28.P – Deixa eu olhar as duplas aqui no caderno. Vocês lembram como é que eu formei as duplas? Larissa com Bianca, Tauane com Tália, Lorena vem sentar com Lucas, agora aqui, ó, Edson com Bianca (trocou Bianca de lugar, passando a compor dupla com Edson e não mais com Larissa). (Volta-se para as pesquisadoras e justifica): já analisei bem essa dupla e essa dupla não andou dando certo. Jéssica você só vai ficar nessa dupla se você não  fizer as coisas para ele... (aproxima-se de um aluno e fala só com ele).
29.P – Bruno qual foi o acordo que nós fizemos? Parquinho só na sexta-feira. Aproxima-se do quadro de giz.
30.P – Posso escrever as instruções no quadro, Gabriel? Escreve no quadro: “Instrução número 1: Escrever o nome na folha”. As crianças querem saber se é preciso copiar a instrução.
31. P – Aquilo ali é apenas instrução. Não coloquei linha porque algumas pessoas têm letra muito grande outras têm letra pequenininha.
Ao esclarecer o que era preciso copiar a P está fazendo uma distinção entre dois níveis do seu discurso escrito no quadro: O título e o texto propriamente dito. Usou aqui uma andaimagem construída com uma instrução direta.
32. Escreve no quadro “Instrução número 2 – Ilustre”.
33. P – O que é ilustrar? (responde) Desenhar. É para ilustrar. Desenhar neste retângulo a história que eu contei hoje pra vocês.
 Fornecer um sinônimo de “ilustrar” é também uma estratégia direta de andaime.
Uma  aluna se levanta e se aproxima da Professora.
A – Ô tia, a gente vai escrever a historinha aqui. É pra desenhar aqui, é?
P – É pra desenhar parte da história ou a história toda, como você quiser.
Os alunos se envolvem no desenho. A Professora aguarda que eles terminem.
34.P – Quem terminou de desenhar (bate duas palmas) pode sair para lanchar lá debaixo da árvore.

3.Comentários finais
Nosso objetivo com este texto foi demonstrar como os andaimes se efetivam por meio de recursos lingüísticos, segmentais, supra-segmentais e paralingüísticos, muitos dos quais  constituem pistas de contextualização no processo interacional. Procuramos mostrar como a prática da andaimagem favorece uma interação positiva e produtiva entre Professora e alunos, resultando em um elemento facilitador de sua mediação pedagógica.
Observe-se que toda a aula é uma seqüência de estratégias de andaimes, o que certamente contribui para a atmosfera positiva em sala de aula. Podemos mencionar, aqui, ao fecho de nossas considerações, algumas dessas ações positivas que são implementadas por meio dos andaimes. A primeira delas é, sem dúvida, a disposição para ouvir. Em qualquer interação humana, a disposição dos interagentes de se ouvirem mutuamente, alternando o piso de fala, é crucial no desenvolvimento de relações positivas. Há um alto grau de contingência nos diálogos na medida em que os participantes escutam um ao outro e  vão produzindo seus turnos de fala de maneira muito complementar. Quando isso não acontece, a interação torna-se regressiva, e pode até evoluir para o confronto.
            Em sala de aula, é comum que os professores se envolvam tanto com o conteúdo das disciplinas que chegam a negligenciar esse princípio fundamental de prestar atenção ao que os alunos dizem. (Ver DETTONI, 1995).  Ouvir o aluno é o componente inicial e básico de sua ratificação como falante legítimo. A ratificação se complementa pelo incentivo aos alunos que tomem o piso de fala e participem da co-construção do discurso, da disciplina e da aprendizagem.  Ao longo de toda a aula, vemos a Professora  animando os alunos a atuarem como co-narradores e co-responsáveis pelas atividades que estão sendo desenvolvidas. 
Ratificar significa também aceitar a contribuição do aluno, mesmo quando é necessário conduzi-lo a uma reformulação, ou chamar-lhe a atenção para que assuma um comportamento compatível com a dinâmica de sala de aula.
Outros processos relevantes que se implementam por meio dos andaimes são a ativação de esquemas cognitivos que os alunos já detêm, a oportunidade de que desenvolvam inferências ou processem reconceptualizações,  ou que trabalhem  normas de convivência, considerando que as normas de sociabilização dos alunos naquele domínio social são diferentes das que adotam no domínio social da família. De fato, nas séries iniciais, os alunos estão sendo introduzidos à cultura de letramento,  adquirindo novas habilidades e competências, ao mesmo tempo que se vão  ajustando a regras de sociabilização que são um pouco distintas das que  prevalecem  em seu círculo primário.  Ao discutir essas estratégias de andaimagem, tivemos o propósito de ilustrar processos e ações positivos na interação de sala de aula. Procuramos, ainda, com este texto, dar   testemunho da competência da Professora que foi nossa colaboradora no trabalho.

BIBLIOGRAFIA
BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Scaffolding in classroom discourse, Article number: LALI: 00356, Encyclopedia of language and linguistics, second edition, Elsevier, (no prelo).
­­_____, Nós cheguemu na escola, e agora? Sociolingüística & Educação. São Paulo: Parábola, 2005.
BRUNER, Jerome. Child’s talk: learning to use language. New York: W. W. Norton, 1983.
CAZDEN, Courtney B. Classroom discourse. Portsmouth: Heinemann Educational Books, 1988.
COLL, César e EDWARDS, Derek,  (orgs.) Ensino, aprendizagem e discurso em sala de aula. Porto Alegre: Artmed, 1998.
DETTONI, Raquel. Interação em sala de aula: as crenças e as práticas do professor. Dissertação (Mestrado) Brasília: UnB, 1995
FIGUEROA, Esther. Sociolinguistics metatheory. New York, 1994.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
GUMPERZ, John J. Interactional Sociolinguistics: a personal perspective In: SCHIFFRIN, D. e HAMILTON, H. (orgs.). The handbook of discourse analysis. Oxford: Blackwell, 2003, p. 215-228.
RIBEIRO, Branca Telles  e GARCEZ Pedro M.  (orgs.). Sociolingüística interacional. São Paulo: Loyola, 2002.
FERNANDES DE SOUSA, Maria Alice. Da fala à escrita: os saberes da oralidade e o início de produção da escrita escolar. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Educação, Universidade de Brasília, 2004.
PAGLIARINI COX,  Maria Inês e ASSIS-PETERSON, Ana Antônia de.  (orgs.). Cenas de sala de aula. Campinas, São Paulo: Mercado de Letras, 2001.
PONTECORVO, Clotilde y ORSOLINE Margherita. Analisando los discursos de las prácticas alfabetizadoras desde la perspectva de la teoría de la actividade. Infancia y aprendizaje,  vol.58,  p. 125-141, 1992.
SINCLAIR J, M. e COULTHARD R. M. Towards an analysis of discourse. London: Oxford University Press, 1975.
VYGOTSKY, Lev. S.  A formação social da mente. SP: Martins Fontes, 1987.



[1] Para a elaboração deste capítulo, valemo-nos principalmente de dois trabalhos: BORTONI-RICARDO, Stella Maris, Scaffolding in  classroom discourse, Article number: LALI: 00356, Encyclopedia of language and linguistics, second edition, Elsevier, (no prelo) e FERNANDES DE SOUSA, Maria Alice. Da fala à escrita: os saberes da oralidade e o início de produção da escrita escolar. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Educação, Universidade de Brasília, 2004.            
[2] Os estudos do discurso de sala de aula desenvolveram-se principalmente no âmbito da Etnografia de sala de aula. Um marco desses estudos é o trabalho de Courtney Cazden, Classroom discourse, 1988. Para leituras em Português ou em Espanhol, remetemos para estes  textos: Pagliarini Cox,  Maria Inês e Assis-Peterson, Ana Antônia de  (orgs.), Cenas de sala de aula, 2001 e Coll, César e Derek, Edwards (orgs.), Ensino, aprendizagem e discurso em sala de aula, 1998. PONTECORVO, Clotilde y ORSOLINE Margherita, Analisando los discursos de las prácticas alfabetizadoras desde la perspectva de la teoría de la actividade. Infancia y aprendizaje,  vol.58,  p. 125-141, 1992.

[3] A observação  foi efetuada  no dia 10/09/2004 em uma escola da rede pública do Distrito Federal.
[4] As falas que estamos reproduzindo são glosas porque nos baseamos em anotações escritas e não em transcrições de gravações. P indica  fala da Professora; A e A’s indicam as falas de um aluno ou de vários alunos respectivamente.

ALFABETO AFETIVO: Por Maria Alice Fernandes de Sousa - SEEDF



OBJETIVOS:
1-    Desenvolver a consciência fonológica (relação grafema x fonema).
2-    Incentivar a escrita.

PROCEDIMENTOS:
1. Entregar para os(as) alunos(as) uma folha em que esteja digitado o alfabeto escrito na letra de imprensa maiúscula e na posição vertical.

A ___________
B ___________
C ___________

2. Pedir aos(às) alunos(as) que pesquisem nomes de pessoas (familiares, amigos etc) com quem tenham uma relação de afetividade, cujos nomes comecem com as letras do alfabeto (marcar data para a entrega do trabalho).
3. Retomar o trabalho em sala de aula com os(as) alunos(as) sentados e cada um com seu trabalho em mãos.
4. O(a) professor(a), com as letras do alfabeto em uma sacola, vai sorteando uma a uma.
5. Retirar uma letra, apresentar aos(as) alunos(as) e perguntar o nome de tal letra.
6. Pedir que cada aluno(a) leia os nomes das pessoas que escreveram e que começa com aquela letra; pedir ainda que diga qual relação de afetividade tem com aquela pessoa.
7. Trabalhar umas dez letras por dia, pode ser mais ou menos, dependendo do número de alunos(as) em sala.
8. Os trabalhos deverão ficar expostos em um varal para posterior leitura e consulta de escrita de palavras pelos(as) alunos(as), se for o caso.
9. Essa atividade pode ser variada com a elaboração de alfabetos dos nomes das frutas, personagens infantis, brincadeiras etc, e deve ser realizada até o(a) professor(a) perceber que todos os alunos já desenvolveram a consciência fonológica.


APRENDENDO A USAR O DICIONÁRIO

Por Maria Alice Fernandes de Sousa - SEEDF


OBJETIVOS:
1-    Aprender a usar o dicionário;
2-    Compreender a ordem alfabética;
3-    Aprender os nomes dos colegas e
4-    Estudar aspectos das convenções ortográficas, por exemplo, o estudo do ditongo nasal crescente “ão” na escrita da palavra João, entre outros.

PROCEDIMENTOS:
1. Entregar uma ficha de cartolina para os(as) alunos(as) e pedir que escrevam seu prenome em letra de forma maiúscula; pedir que escrevam a primeira letra em cor diferente das demais para dar ênfase a ela.
2. Em seguida, o(a) professor(a) utiliza-se de uma tira alfabética ou escreve no quadro o alfabeto em letra maiúscula de imprensa.
3. Quando todos os(as) alunos(as) concluírem a escrita, o(a) professor(a) chama atenção para o alfabeto do quadro e pergunta qual o nome da primeira letra.
4. Após a resposta dos(as) alunos(as), o(a) professor(a) reforça dizendo que essa letra se chama letra A, ratificando-os(as) e pergunta quais são os(as) alunos(as) da sala cujos  nomes começam por essa letra.
5. Pede a esses alunos(as) que venham à frente da turma com suas fichas e se posicionem de forma que todos os(as) demais colegas visualizem seus nomes, por exemplo:

AUGUSTO   AMANDA   ANDREIA

6. O(a) professor(a) pergunta: _ Como os três nomes começam com a mesma letra, o que temos de fazer para saber qual deles será o primeiro a ser colocado na ordem alfabética? Espera os(as) alunos(as) responderem. Se eles não responderem, então o(a) professor(a) chama atenção para a segunda letra dos nomes e pergunta: _Qual a segunda letra do nome de AUGUSTO? E do nome de AMANDA? E do nome de ANDRÉIA?
7. Após a resposta   dos alunos, o professor volta-se para o alfabeto no quadro e pergunta: _Na ordem do alfabeto, qual letra vem primeiro, a letra U, M ou N?, apontando enfaticamente cada letra. Os alunos vão responder que é a letra M.
8. O professor ratifica os(as) alunos(as) e diz que, então, o nome de AMANDA será o primeiro da lista. Em seguida passa para comparar os outros dois nomes: AUGUSTO e ANDREIA, perguntando qual a letra que vem primeiro na ordem alfabética, se é a letra U ou N, sempre apontando para as letras para dar destaque ao aspecto da ordem alfabética.
Os alunos vão responder que é a letra N. O professor, então, afirma que o segundo nome será o da ANDRÉIA e o último será o do AUGUSTO.
9. Na seqüência, o(a) professor(a) vai ao quadro e pergunta, qual a segunda letra do alfabeto. Os alunos vão dizer e o(a) professor(a) vai chamar à frente os(as) alunos(as) cujos nomes comecem com a letra B. Procede da mesma forma com os(as) alunos(as) da letra A, pedindo que esses se posicionem de modo a permitir que os(as) demais alunos(as) visualizem seus nomes:

BEATRIZ  BENÍCIO

10. O(a) professor(a) pergunta aos(as) alunos(as) qual o nome das primeiras letras dos nomes dos colegas. Pergunta, ainda, qual é o nome das segundas letras. Chamar atenção para o fato de que as segundas letras são iguais nos dois nomes. O que fazer nesse caso? Recorrer à terceira letra e chamar atenção para os nomes delas, A e N.
11. Perguntar aos(as) alunos(as) qual a letra que vem primeiro na ordem do alfabeto, se é a letra A ou N. E assim proceder até colocar todos os nomes dos(as) alunos(as) na ordem alfabética. Finalmente, lê os nomes com os(as) alunos(as).

Professor(a), dê asas à imaginação para a realização de outras atividades a partir dos nomes dos alunos.
Os nomes dos(as) alunos(as) deverão ficar expostos na sala de aula, pois contribui para desenvolver a idéia de pertencimento dos mesmos com aquele espaço de aprendizagens e pode ser usado para a realização de outras atividades de leitura e escrita.

Todas essas atividades foram desenvolvidas pela autora e amplamente testadas nas salas de aula em que a mesma atuou como docente na alfabetização e vêm sendo difundidas nos cursos de formação de Professores Alfabetizadores.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Vídeos dos Fascículos: 5,6,7 e Complementar

Iniciando a prosa com o Fascículo 6: Magda Soares: O livro didático e a escolarização da leitura




O  livro usado didaticamente em sala de aula – essa é uma expressão a respeito da qual convém pensar um pouco. Estamos falando do livro que é o livro que não é didático, que não foi feito para a escola. É o livro que é usado fora das paredes da escola, que serve a uma prática social de leitura e que é levado para a sala de aula. Sem dúvida isso tem de ocorrer, deve ocorrer, apenas é necessário que estes livros sejam trabalhados de maneira adequada. De qualquer forma, vai ser uma escolarização da leitura, é inevitável que a leitura se torne escolarizada, que esteja em qualquer área de conteúdo. Porque tudo que você traz para a escola é escolarizado, forçosamente. Mas há a boa escolarização e a má escolarização. Então, esse livro não-didático, trazido para a sala de aula, é um livro que é escolarizado, mas o que se deseja é que seja bem escolarizado. Que essa escolarização não mate as características básicas da prática social de leitura.

Entrevista com Magda Soares
Salto: É possível a gente pensar que a história da educação no Brasil, de certa forma,  se confunde com a história  das cartilhas, dos livros didáticos, dos materiais pedagógicos?
Magda Soares – Não, acho que seria um pouco de exagero pensar que essa história se confunde, porque há uma certa interdependência entre o trabalho da educação e do ensino nas escolas, historicamente, e a história do material didático. Na verdade, ele existe desde que existe a escola e, pode-se dizer, de formas variadas.  Mas ele vai se tornando mais presente, mais intensamente presente, na medida em que a clientela da escola se amplia e que, correspondentemente a isto, a formação dos professores e as condições de trabalho do professor vão se tornando mais difíceis. Então, surge a necessidade do material pedagógico, e entre ele o livro didático, para apoio ao professor e ao ensino. A intensidade da presença do material didático na escola e na sala de aula, relativamente, sempre existiu, se nós pensarmos em termos históricos.
Salto: Os livros didáticos, um pouco antes da década de 60, passavam de geração a geração. Hoje, os livros têm uma durabilidade menor, eles são modificados a cada geração. Existem mais títulos. Como é essa variação da nova concepção do livro didático?
Magda Soares – Essas são condições sociais, políticas, econômicas. É um fenômeno bastante complexo. Realmente, até os anos 60 os livros didáticos eram muito poucos. Basta lembrar, para citar um exemplo, que a Antologia Nacional, do Fausto Barreto e Carlos de Laerte, foi o livro das aulas de Português desde quando foi editado, que foi nos últimos anos do século XIX, até os anos 60, do século XX. A primeira edição é de 1895, a última é de 1968 ou 1969. Era o livro que dominava as escolas todas, na área do Português. A partir daí ocorre este fenômeno da multiplicação dos livros didáticos e também da vida curta que os livros passaram a ter. Há vários motivos para isso. Hoje em dia, pode-se dizer que a vida útil de um material didático é de 5, 6 anos, no máximo. Isso porque, primeiro, a multiplicação dos livros é, de novo, uma conseqüência do aumento da clientela, criando, portanto, um comércio mais atraente. Ao lado disso, o desenvolvimento da indústria gráfica no país, que data dos anos 60, 70, facilitando a publicação de muitos livros. E há uma terceira razão, mais substantiva, que é a mudança muito rápida do conhecimento. Então, existe a necessidade quase que permanente de atualização do material didático.
Salto: Antigamente existiam alguns livros padrões, que eram utilizados em vários lugares do país. Hoje, com o aumento de possibilidades, de opções, de enfoques do livro didático, surge uma nova questão: cada região, ou mesmo cada escola, acaba tendo a opção de escolher seu próprio livro didático. E em conseqüência, há uma diferença de abordagem, de enfoque, nas diversas regiões. Existe algum ponto negativo e/ou positivo dessa nova realidade?
Magda Soares – Olha, na verdade, não há tanta variedade assim, porque os livros se multiplicam, mas há sempre um tom comum. Porque eles refletem sempre o estágio do conhecimento num determinado momento e, quando eu falo conhecimento, é tanto do conteúdo, quanto dos conhecimentos pedagógicos também. Então, mesmo num país grande como é esse nosso, você vê uma certa homogeneidade dos livros didáticos. Além disso, há ainda esse outro aspecto que é a facilidade da distribuição no mundo atual. Então, um livro que é produzido num estado ele, rapidamente, chega em todos estados do Brasil. Há realmente mais homogeneidade do que heterogeneidade. O que, pensando em termos de ensino fundamental, é de certa forma positivo. Por quê? Se o ensino fundamental é para formar o cidadão brasileiro, nós não queremos um cidadão diferente no Norte, no Sul, no Leste, no Oeste. Há de haver uma homogeneidade mesmo. Que vem tanto dos Parâmetros Curriculares, que são Nacionais, quanto dos livros didáticos que, refletiram um determinado momento do desenvolvimento da ciência e, procurando atender aos Parâmetros Nacionais, também se igualam, ou se aproximam muito, no país todo.
Salto: Falando historicamente, quais são as principais evoluções pelas quais o livro didático passou ao longo do tempo?
Magda Soares - É uma história complexa essa, mas simplificando um pouco: uma mudança grande, que vai ocorrendo ao longo da história, é que, antes, um livro, em geral, apenas fornecia ao professor elementos básicos para o seu trabalho. Atualmente, os livros procuram dar uma orientação muito detalhada ao professor. Para exemplificar isso, na Antologia Nacional, que eu citei agora mesmo, que foi um livro usado durante os anos 60 nas aulas de Português, ele era apenas uma antologia, uma coletânea de textos. Ao lado da Antologia, usava-se uma gramática, que era uma gramática normativa, sem exercícios, sem atividades, nada disso. O aparecimento de exercícios de atividades para os alunos, que caracteriza hoje os livros didáticos, isso surge a partir dos anos 50, 60. Então, essa é a diferença grande. Outra diferença grande é que hoje em dia não se compreende um livro didático sem o chamado manual do professor. Esse manual do professor surge no fim dos anos 60, início dos anos 70. É uma outra diferença grande. Antes disso, eu imagino que os professores considerariam quase que como uma ofensa que lhes fosse oferecido um manual do professor ao lado do livro do aluno, mas isso se tornou uma necessidade a partir dos anos 60, exatamente pelo rebaixamento das condições de trabalho do professor.
Salto: E a partir de que momento o livro didático passou a conviver com os outros materiais pedagógicos e essa junção foi considerada importante? A partir de que momento o livro didático deixou de ser a fonte principal de informação e de trabalho com os alunos e o professor passou a agregar, na sala de aula, diversos materiais pedagógicos?
Magda Soares – Olha, isso sempre ocorreu. Menos do que atualmente, mas sempre ocorreu. As cartilhas, elas sempre tiveram junto delas, o que, na literatura técnica, chamamos os “satélites”. Então, você tinha a cartilha, você tinha os cartazes, enfim, material que o aluno pudesse manipular. Mas, sem dúvida, à medida que progride a tecnologia, novos materiais vão entrando na sala de aula, ao lado do livro didático. Felizmente. Resultado do avanço tecnológico, fundamentalmente.
Salto: E qual deve ser o papel do professor ao utilizar o livro didático? O professor, hoje, ele está preparado para usar esse livro didático? A senhora estava falando justamente dos manuais dos professores, que antes não se teria imaginado pensar nisso. Então, qual é o papel do professor, hoje, ao lidar com o livro didático?
Magda Soares – Olha, há o papel ideal e o papel real. O papel ideal seria que o livro didático fosse apenas um apoio, mas não o roteiro do trabalho dele. Na verdade isso dificilmente se concretiza, não por culpa do professor, mas de novo vou insistir, por culpa das condições de trabalho que o professor tem hoje. Um professor hoje nesse país, para ele minimamente sobreviver, ele tem que dar aulas o dia inteiro, de manhã, de tarde e, freqüentemente, até a noite. Então, é uma pessoa que não tem tempo de preparar aula, que não tem tempo de se atualizar. A conseqüência é que ele se apóia muito no livro didático. Idealmente, o livro didático devia ser apenas um suporte, um apoio, mas na verdade ele realmente acaba sendo a diretriz básica do professor no seu ensino.
Salto: Qual a diferença principal entre o livro didático e livros que são utilizados didaticamente em sala de aula?
Magda Soares – O  livro usado didaticamente em sala de aula – essa é uma expressão a respeito da qual convém pensar um pouco. Estamos falando do livro que é o livro que não é didático, que não foi feito para a escola. É o livro que é usado fora das paredes da escola, que serve a uma prática social de leitura e que é levado para a sala de aula. Sem dúvida isso tem de ocorrer, deve ocorrer, apenas é necessário que estes livros sejam trabalhados de maneira adequada. De qualquer forma, vai ser uma escolarização da leitura, é inevitável que a leitura se torne escolarizada, que esteja em qualquer área de conteúdo. Porque tudo que você traz para a escola é escolarizado, forçosamente. Mas há a boa escolarização e a má escolarização. Então, esse livro não-didático trazido para a sala de aula, é um livro que é escolarizado, mas deseja-se que seja bem escolarizado. Que essa escolarização não mate as características básicas da prática social de leitura.

Salto:  E, justamente, por isso requer esse trabalho do professor de acrescentar esse tipo de livro e aí formar novos leitores, pessoas mais críticas, formando os novos cidadãos, não seria isso?
Magda Soares – É, porque no caso do livro didático é uma escolarização radical dos conteúdos, porque é uma didatização, uma pedagogização que é necessária. Mas, que precisa ser complementada com uma ponte que o professor faça trazendo sempre uma aproximação com a prática social real da leitura e da escrita.

Salto: A gente falando agora mais especificamente da Língua Portuguesa. Qual a especificidade do livro didático na Língua Portuguesa em relação aos outros livros didáticos de várias outras áreas do conhecimento, mesmo que todos esses livros acabem trabalhando com textos, tanto os textos literários quanto os textos em geral? Quais são as especificidades do livro didático específico para a Língua Portuguesa?
Madga Soares – Na verdade, todos os livros são livros de leitura. Na história é leitura, na geografia é leitura, nas ciências é leitura. Daí esse princípio importante que não tem sido plenamente cumprido nesse país, de que todos os professores são responsáveis pelo desenvolvimento de habilidades de leitura e de escrita. Cada um na sua área específica, porque é uma peculiaridade da leitura e da escrita em cada área de conhecimento. Quanto ao Português, a especificidade do Português é que, enquanto os outros livros didáticos têm os textos como instrumento para conduzir a determinados objetivos característicos dos conteúdos daquela área de conhecimento, no Português a leitura está lá e a escrita está lá para desenvolver as habilidades de leitura e de escrita. É o próprio conteúdo. A leitura é o próprio conteúdo do livro de Português, como a escrita é o próprio conteúdo do livro didático de Português. Isso é o que diferencia o trabalho do professor de Português com a leitura e a escrita do trabalho dos professores de outras disciplinas.

Salto: Qual a relação entre a leitura e a produção de textos presentes nos livros didáticos de Língua Portuguesa?
Magda Soares – A relação? Costuma-se estabelecer uma relação muito estreita entre a leitura e a produção de texto. Inclusive com uma frase que é dita com freqüência: “a pessoa que lê muito escreve bem”. O que não é verdade, há muita gente que lê muito e não escreve bem. Há muita gente que escreve bem e até nem lê tanto assim. Há alguma proximidade, mas não há uma relação causa e efeito. Essa relação costuma estar presente nos livros didáticos de Português. Como se o aluno tivesse sempre que ler e depois escrever sobre aquilo que ele leu, o que não é uma prática social. Na nossa vida, fora das paredes da escola, a gente não está lendo uma revista e em seguida vai escrever sobre aquilo que a gente leu. São duas práticas sociais diferenciadas, com objetivos diferentes, com interlocutores diferentes. Daí que há alguma, não vou dizer que não há relação, mas há uma interdependência grande das atividades de leitura para as atividades de escrita, porque são duas práticas sociais bastante diferenciadas.

Salto: No caso dos diferentes tipos de textos que são abordados e que estão incluídos dentro do livro didático é importante que esses textos respeitem os diferentes “falares”, as diferentes características regionais do país?
Magda Soares – Essa é uma diferença grande que a gente percebe nos livros didáticos de Português, quando analisados historicamente. Até um certo momento, não muito distante, só se admitia o texto literário, do bom autor, no livro didático de Português. Eu citei a Antologia Nacional, volto a ela, ali só se encontram autores brasileiros e portugueses reconhecidamente de valor na literatura. É recente a entrada, tanto no livro didático, quanto na aula de Português, de outros gêneros e de outros tipos de texto, o que era necessário, é necessário, porque as práticas sociais são variadas. É preciso preparar o aluno para as habilidades de leitura e de diversos tipos, diversos gêneros de textos. Daí a entrada de textos de jornal, textos da revista, a publicidade, a charge, etc. – a entrada de todos esses gêneros no livro de Português.  O que tem ocorrido, no meu entender, é que essa invasão está um pouco violenta demais, talvez excessiva demais, em prejuízo do texto literário. Porque o texto literário está se tornando cada vez mais ausente dos livros didáticos de Português. Por causa do critério que devem estar na aula aqueles tipos de texto que circulam mais intensamente na sociedade.  Mas é preciso pensar no outro lado da questão, cabe à escola também suprir aquilo que não circula intensamente na sociedade e que é importante que o indivíduo conheça e, preferencialmente, aprenda a gostar dos textos literários. Que é o caso do texto literário, a prosa literária, o poema, etc.

Salto: Dentro, um pouquinho, dessa questão da literatura, da Língua Portuguesa, qual o papel dos dicionários e das gramáticas na sala de aula?
Magda Soares – O dicionário é sempre um apoio, o dicionário é um apoio fundamental. E eu vivo rodeada de dicionários, não sei trabalhar sem dicionários, até no plural. E o aluno deve aprender a fazer esse uso, todo cidadão, toda pessoa precisa de dicionários. É preciso desenvolver, realmente, essa habilidade. E a gramática, sendo considerada também uma obra de consulta, não como, pelo menos no ensino fundamental, não como a gramática sendo um conteúdo sistemático, ensinado de forma sistemática, mas uma consulta, um livro de consulta, tal como o dicionário. Para as dúvidas que a pessoa tenha com relação a alguma regência, uma concordância, se se põe um acento, se não se põe um acento, etc..

Salto: Então, a gramática deve estar sendo utilizada sempre, mesmo fora daquele conteúdo programado da sala de aula?
Magda Soares – Na minha concepção, a gramática deve ser usada exclusivamente como um livro de consulta e não como um livro didático, porque o ensino da gramática não cabe no ensino fundamental. Talvez no ensino médio, mas não no ensino fundamental. Não dessa forma sistemática! É claro que é necessário, que em aulas de Português, se desenvolva nos alunos uma capacidade de reflexão sobre a língua, uma certa chamada metalinguagem, de poder olhar a língua como um objeto. Em certos casos, em relação a certos fenômenos que sejam importantes para o aperfeiçoamento das suas habilidades de leitura e de escrita que estejam relacionados com o uso da Língua Portuguesa.
Salto: Falando um pouquinho da formação de leitores, qual o papel da biblioteca, seja ela escolar ou comunitária, para a formação de leitores e escritores competentes?
Magda Soares – É fundamental. É inadmissível uma escola sem bibliotecas. Embora essa coisa inadmissível ocorra com freqüência nesse país. Tanto todas as escolas deveriam ter ricas bibliotecas, quanto os municípios deveriam ter bibliotecas públicas. Por quê? A sala de aula tem um limite no convívio dos indivíduos com a leitura e a escrita. Então, esse convívio tem que se ampliar e são as bibliotecas que permitem que essa ampliação ocorra.

Salto: Existe agora a discussão, que é bem próxima, que é bem real, das novas tecnologias em sala de aula. Então, como é que, na sua opinião, a TV, o computador eles devem ser utilizados em sala de aula, de forma que eles favoreçam o processo de aprendizagem e a formação de leitores e escritores, sem que essa utilização seja simplesmente técnica e ela possa ser realmente proveitosa para a formação dos alunos?
Magda Soares – Não é apenas mais uma tecnologia na sala de aula. A televisão, e também o computador, são novas linguagens. Então, devem ser tratados como novas linguagens, que a escola deve desenvolver, porque estão aí presentes. A televisão, por exemplo, o aluno deve aprender a ser um leitor crítico da televisão. Da mesma forma que a gente desenvolve habilidades para leitura do texto no papel, é preciso desenvolver habilidades para a leitura do texto na tela. E o texto na tela é aquele texto que combina a palavra com a imagem, com o som. Então, é uma leitura complexa que não pode ser passiva. Da mesma forma no computador, o computador trouxe um outro tipo de texto que é o chamado hipertexto que é uma forma de leitura muito diferente. Não é um texto linear, é um texto simultâneo que também reune a palavra com a imagem, com o som, enfim com vários recursos. E é preciso desenvolver as habilidades de leitura, de compreensão, de interpretação desse tipo de texto. Esse é o papel dessas tecnologias na sala de aula. Não apenas para ficar mais interessante, para facilitar o trabalho do professor, mas porque são novas linguagens que o aluno precisa aprender a ler, a compreender, a interpretar.

Salto: E os impactos dessas novas tecnologias na sala de aula? Hoje é bem comum os jovens usarem o corretor ortográfico que faz parte do programa de computador no lugar do dicionário. Que impacto isso pode ter, de uma maneira positiva e de uma maneira negativa, no processo de formação do aluno?
Magda Soares – Essa é uma questão difícil, porque a gente está vivendo exatamente uma época de transição, porque essas tecnologias acabam de chegar não só na sala de aula, mas até mesmo na sociedade. Então, essa questão do corretor ortográfico ela é paralela ao uso da calculadora. Da mesma forma que o professor de matemática se pergunta se o aluno deve aprender a fazer as contas no papel ou se ele deve usar a calculadora, na área da Língua Portuguesa estamos nos perguntando se é preciso aprender ortografia ou se é preciso aprender a usar o corretor ortográfico no computador. E claro que nessa fase o computador ainda é de poucos, de muito poucos – se nós pensarmos na população de alunos que nós temos é uma percentagem muito pequena – então, ainda temos que estar trabalhando com a ortografia, mas pode ser que chegue um momento que o computador esteja tão socializado que se deva pensar se é necessário ou não que os indivíduos aprendam ortografia ou se basta que eles aprendam a usar um corretor ortográfico.

Salto: E quando a senhora se remete ao seu momento de sala de aula como aluna, como a senhora lembra do livro didático?
Magda Soares: Olha eu não tenho muito viva na minha cabeça a lembrança do uso do livro didático nas aulas em geral. Não tenho mesmo, sabe. Eu tenho para mim, como a minha área de pesquisa é história do ensino da Língua Portuguesa e eu tomo como fonte fundamental o livro didático, porque o livro didático reflete muito claramente o que é o ensino de Português em cada momento, então você pode fazer uma história do ensino de Português, tomando como fonte de informação os livros didáticos ao longo das décadas e até dos séculos. Então, eu sei que num determinado período, em que eu fiz a minha escola primária, que na época se chamava primário e ginásio e mesmo até o científico, hoje chamado Ensino Médio não me lembro de um papel muito forte do livro didático, não. Lembro-me de um papel muito forte do professor, mas não do livro didático. Mas isso já não ocorreu com os meus filhos, por exemplo, os meus filhos eu sempre os vi com o livro didático na mão, resolvendo um exercício do livro didático, durante todo o tempo da escolarização deles. Portanto, isso é paralelo àquilo que eu disse antes. O livro didático vai se tornando cada vez mais presente na sala de aula, à medida que condições sociais e econômicas vão mudando o papel do professor e as condições de trabalho do professor.

Salto: Ler e escrever é um compromisso de todas as áreas do conhecimento?
Magda Soares – Esse é um ponto em que se deve insistir muito hoje, a tendência é julgar que cabe ao professor de Português ensinar a desenvolver habilidades de leitura e de escrita. Freqüentemente, professores das outras disciplinas se queixam com o professor de Português de que os seus alunos não estão sabendo compreender o problema de Matemática, o texto de História, o texto de Ciências. Na verdade, essa competência, essa responsabilidade não é só do professor de Português, nem o professor de Português é inteiramente competente para desenvolver habilidades de leitura de um problema de Matemática, por exemplo. Porque tem uma terminologia específica, tem uma forma específica de se apresentar, como o livro de Ciências, como o livro de Geografia. Não é o professor de Português quem vai ensinar um aluno a ler um mapa, nem quem vai ensinar a ler um gráfico. Isso são atribuições específicas dos professores que trabalham com essas formas de escrita. Então, cabe a eles desenvolver essas habilidades de leitura e de escrita também. Escrever um texto de História, ou de Ciências, não é a mesma coisa que escrever uma crônica, se o professor de Português pede uma crônica. São gêneros diferentes, cada área de conteúdo tem um tipo específico de texto que cabe ao professor dessa área ensinar o aluno a escrever ou a ler. Mas, essa é uma questão que tem sido difícil, porque os professores de outras áreas que não Português não têm recebido formação na área de leitura, isso seria necessário, introduzir na formação desses professores alguma disciplina, enfim, alguma formação na área de leitura e produção de texto para que eles pudessem trabalhar com isso.
(Entrevista concedida em 07 de outubro 2002)



Nome: Magda Soares
Formação: Doutora em Educação, Licenciada em Letras
Alguns livros publicados: 
- O ensino da Língua Portuguesa e Literatura brasileira 2° grau. Questões metodológicas. Brasília, MEC, 1981.
- Linguagem e escola: uma perspectiva social. São Paulo, Ática, 1986.
- Um olhar sobre o livro didático. Belo Horizonte, Dimensão, 1996.
- Letramento: em tema três gêneros. Belo Horizonte, Editora Autêntica, 1998.