sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

"Para Sara, Raquel, Lia e para todas as crianças" - (Carlos Drummond de Andrade)

 

Eu queria uma escola que cultivasse
 a curiosidade de aprender
 que é em vocês natural.

 Eu queria uma escola que educasse
 seu corpo e seus movimentos:
 que possibilitasse seu crescimento
 físico e sadio. Normal

 Eu queria uma escola que lhes
 ensinasse tudo sobre a natureza,
 o ar, a matéria, as plantas, os animais,
 seu próprio corpo. Deus.

 Mas que ensinasse primeiro pela
 observação, pela descoberta,
 pela experimentação.

 E que dessas coisas lhes ensinasse
 não só o conhecer, como também
 a aceitar, a amar e preservar.

 Eu queria uma escola que lhes
 ensinasse tudo sobre a nossa história
 e a nossa terra de uma maneira
 viva e atraente.

 Eu queria uma escola que lhes
 ensinasse a usarem bem a nossa língua,
  a pensarem e a se expressarem
 com clareza.

 Eu queria uma escola que lhes
 ensinassem a pensar, a raciocinar,
 a procurar soluções.

 Eu queria uma escola que desde cedo
 usasse materiais concretos para que vocês pudessem ir formando corretamente os conceitos matemáticos, os conceitos de números, as operações... pedrinhas... só porcariinhas!... fazendo vocês aprenderem brincando...

Oh! meu Deus!
Deus que livre vocês de uma escola
 em que tenham que copiar pontos.

 Deus que livre vocês de decorar
 sem entender, nomes, datas, fatos...

 Deus que livre vocês de aceitarem
 conhecimentos "prontos",
 mediocremente embalados
 nos livros didáticos descartáveis.

 Deus que livre vocês de ficarem
 passivos, ouvindo e repetindo,
 repetindo, repetindo...

 Eu também queria uma escola
 que ensinasse a conviver, a  cooperar,
 a respeitar, a esperar, a saber viver
 em comunidade, em união.

 Que vocês aprendessem
 a transformar e criar.
 Que lhes desse múltiplos meios de
 vocês expressarem cada
 sentimento,
 cada drama, cada emoção.

 Ah! E antes que eu me esqueça:

 Deus que livre  vocês
 de um professor incompetente.

ROTINAS DE PRÁTICAS DE LEITURA/ESCRITA



A organização do trabalho de leitura e escrita precisa estar em sintonia com o que é próprio da idade, considerando a experiência prévia das crianças com o mundo da escrita em seus espaços familiares, sociais e escolares. Assim, é preciso criar contextos significativos, trabalhando com temas de interesse e com amplo mundo da escrita, que desafia as crianças a lidar com a diversidade de textos que elas conhecem e de outros que precisam conhecer, sem perder de vista os conteúdos que se pretende atingir. O professor deverá lidar com dois desafios: aproveitar a experiência que a criança já tem com a cultura escrita, as necessidades de ler e escrever de cada turma e, também, saber o que pode organizar estabelecendo um conjunto de procedimentos que pode ser adaptado a cada contexto.

EIXOS GERAIS QUE AUXILIAM NA ORGANIZAÇÃO

A)    Criação de contextos significativos

O contato produtivo com a leitura e a escrita de textos é possível quando a escola constrói situações e relações em que a escrita e a leitura se fazem presentes de maneira significativa para os alunos. Assim, é fundamental aproveitar todos os momentos possíveis para que as crianças tenham contato com textos e os utilizem. Situações, em geral não exploradas, como as correspondências com os familiares, os avisos para alunos, a comunicação entre turmas, os murais, as pesquisas e seus registros, os cartazes relacionados à vida escolar – como os de eventos ou campanhas – são ricas em potencial educativo.

B)   Favorecer o contato com variados tipos de textos, com seu uso efetivo e com a análise de seus aspectos formais.

Cabe, portanto, à escola viabilizar o acesso do aluno ao universo dos textos que circulam socialmente, ensinar a produzi-los e a interpretá-los. A escola deve oferecer condições de análise e reflexão sobre os gêneros e tipos textuais: como se organizam, que características possuem e qual a finalidade do texto.

MODOS DE ORGANIZAÇÃO DAS ATIVIDADES

A)            Atividades permanentes

-Atividades sobre as relações entre a língua oral e a língua escrita
-Atividades para o aprendizado do sistema alfabético
-Atividades de interpretação e compreensão de textos
-Atividades de produção de textos

B)  Jogos e desafios

Os jogos possibilitam que determinadas abordagens do sistema, como as relações entre sons e letras e o reconhecimento do alfabeto ou mesmo de palavras, sejam trabalhadas em situações desafiadoras e lúdicas, sem recorrer a exercícios repetitivos de memorização e análise.

C)  Trabalho com temas

Nessa forma de organização, um tema é eleito ou proposto, como brincadeiras, cinema ou esportes, por exemplo, estimulando-se a leitura e o registro de textos relacionados ao tema escolhido. Cabe ressaltar que nesse caso, é preciso não perder de vista que o tópico de estudo é o tema, mas que as atividades de leitura e de escrita em torno dele é que contribuem para o processo da alfabetização.
Se, por exemplo, o grupo estiver estudando o tema brincadeira de nosso tempo e do tempo de nossos avós, vai precisar registrar, por escrito, listas de nomes de brincadeiras, fazer esquemas comparativos entre as brincadeiras de outros tempos, mas que ainda permanecem e àquelas mais desconhecidas, vai poder produzir convites para avós, criar legendas para exposição de brinquedo, entre várias outras coisas.Todas essas atividades vão exigir que o professor apresente exemplos de tipos de texto, e que solicite às crianças que tentem escrever, com sua ajuda, uma carta, convite ou cartaz. Exigem, também que ele proponha jogos e desafios para a escrita, ou para o reconhecimento de palavras que eles já conhecem, sobre pedaços de palavras que eles já conhecem, sobre pedaços de palavras que ajudam a escrever. Em todas estas situações, é necessário rever o planejamento geral do tema, para pensar especificamente as necessidades de escrita e leitura que o trabalho como tema exige.

D)   Organização dos espaços de leitura e escrita na sala de aula e na escola

Estas atividades se referem ao uso da biblioteca de classe e da escola, dos murais, jornais e outros espaços em que a escrita circula para a comunicação com outras turmas e com a comunidade, entre outros. A organização e o uso destes espaços podem se constituir em projetos específicos que gerem várias unidades de estudo sobre a cultura escrita e sobre o sistema da escrita, porque sua utilização autônoma exige a aprendizagem da leitura e da escrita.
Ressaltamos que o espaço de circulação e armazenamento dos textos é um eixo organizador do trabalho com crianças, porque permite construir sociabilidades importantes em torno da leitura e da escrita. Para usufruir a cultura escrita, é precisa saber onde são guardados os textos e saber como funcionam os espaços de circulação da escrita. Acreditamos que os espaços e modos de escrita escolares não sejam “de mentira”, são autênticos e podem ser ainda mais valorizados quando percebemos claramente as suas funções. Assim, a biblioteca de classe, a biblioteca escolar, os murais da sala e dos corredores e pátios são muito importantes para dar sentido à comunicação escrita na escola. Biblioteca é um local de socialização que introduz os alunos num ambiente institucionalizado de armazenamento, circulação e acesso aos textos e deve ser usada para os fins adequados, seja de forma autônoma e mais livre ou em atividades programadas coletivamente. A biblioteca de classe também é um ótimo espaço para se ter materiais, os mais diversos, ao alcance dos alunos, para atividades livres ou dirigidas, e sua organização (inventário de materiais, fichas de empréstimo etc.) dá excelente oportunidade para se aprender sobre as formas de organização da cultura escrita. Murais devem ser um incentivo para a produção autêntica dos textos e da leitura dos alunos e terão tanto mais sentido quanto mais cumprirem a função de informar, de expressar idéias e de se comunicar com outros grupos.

E)   Organização em torno do cotidiano da sala de aula e da escola

O cotidiano da escola é rico em situações em que a escrita e a leitura são necessárias e fazem sentido. Apresentamos a seguir várias delas e ressaltamos que durante a leitura e a escrita, o professor deverá fazer, sempre que possível, a abordagem dos aspectos formais do sistema, fornecendo informações necessárias para que se realize a leitura ou registro para o grupo e para cada solicitação individual dos alunos:

·         Chamada
·         Organização da agenda do dia e da semana (hora do trabalho como o alfabeto, com jogos, com cópia de textos e de palavras, com assembléia de turma, momentos de contar e de ler histórias etc.)
·         Utilização do calendário, com datas, dias da semana e horários para marcar tempo entre uma atividade e outra;
·         Agenda dos alunos, com pequenos lembretes sobre tarefas e materiais a serem utilizados, assim como correspondência com as famílias;
·         Listas de materiais a serem trazidos, de livros lidos, de personagens de histórias com suas características;
·         Horários e dias de organização e de freqüência a biblioteca ou de atividade “extra classe”;
·         Pequenos relatórios de atividades realizadas;





[1] BRASIL, Ministério da Educação. Ensino fundamental de nove anos: orientação para a inclusão da criança de seis anos de idade. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Departamento de Educação Infantil e Ensino Fundamental. Brasília: FNDE, Estação Gráfica, 2006.  

ETAPAS DE PRODUÇÃO ESCRITA DE UM TEXTO [i] -



1.         Apresentação da proposta
Apresentar, planejar e organizar as atividades junto com os alunos e combinar as regras.

2.         Partir do conhecimento prévio dos alunos
Investigar o que os alunos sabem sobre o tema e sobre o gênero a ser trabalhado.

3.         Ampliação do repertório
Favorecer o contato com o gênero a ser trabalhado.

4.         Produção do texto inicial
Avaliar o que o aluno já sabe e quais aspectos do gênero que não conhece, com a finalidade de identificar os pontos que precisam ser trabalhados.
Buscar informações sobre o tema que será abordado no texto a ser produzido.

5.         Organização e sistematização do conhecimento
Refletir sobre os usos e funções do gênero em questão na nossa sociedade.
Identificar os elementos da situação de produção: quem escreve, para quem ler, com que finalidade, para circular em que espaço.
Destacar elementos e marcas lingüísticas características do gênero (exemplo: expressões articuladoras, classe de palavras usadas, tempo verbal, discurso indireto ou direto, etc.).

6.         Produção coletiva
Ensaio geral com o objetivo de ajudar os alunos a transpor o discurso oral para o escrito.
Apontar os problemas do texto e meios para superá-los.

7.         Produção individual
Produzir um texto a partir das informações coletadas nas pesquisas e dos conhecimentos aprendidos sobre os aspectos próprios do gênero.

8.         Revisão e reescrita
Aprimorar o texto produzido.

Concluindo, podemos dizer que é necessário ter-se atividade prévia de leitura, pesquisa, palestra, filme, passeio, debate, etc.; discussão do tema e orientação do professor para o desenvolvimento do trabalho antes da escrita. A produção escrita deve ser vista como construção de um conhecimento e um ponto de interação e deve ser lida e reescrita.



[i] GOMES, Paula. Oficina de produção de textos – Narração. Laboratório de Estudos e Pesquisa em Processos de Aprendizagem e Escolarização – LEPPAE - FE/UnB. Brasília, Set. 2009.

OS ESTATUTOS DO HOMEM - (Ato Institucional Permanente) - Thiago de Mello - À Carlos Heitor Cony


Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Santiago do Chile, abril de 1964

QUADRO COMPARATIVO : LIVRO DIDÁTICO

 

ANTIGOS
ATUAIS
· Presença de textos artificiais – “pseudotextos”;
· Atividades mecânicas e repetitivas;
· Atividades de produção textual associadas a “ideologia do dom”;
· Enfoque nos conteúdos da gramática normativa;
· Ausência de atividades de oralidade;
· Definições gramaticais abstratas;
· Aprendizagem passiva de conteúdos;
· Os alunos não eram envolvidos em situações concretas de leitura;
· Interpretação textual sem desdobramento crítico.
·    Apropriação do conceito de letramento;
·    Presença de diversos gêneros textuais;
·    Atividades com ênfase em situações concretas de leitura e produção textual;
·    Reflexão sobre alguns princípios de funcionamento do Sistema de Escrita Alfabética;
·    Valorização das variedades dialetais;
·    Foco na oralidade, leitura e escrita;
·    Interpretação textual com base na estratégia de inferência;
·    Visão funcional da língua;
·    Enfoque gramatical com base no texto.


ROTEIRO PARA ANÁLISE DO LIVRO DIDÁTICO

 
1) Apresenta seqüência didática com base na oralidade, leitura e escrita?
2) A proposta destinada a interpretação textual envolve a inferência e desdobramentos críticos?
3) A proposta de produção textual enfoca o gênero e suas principais características?
4) As atividades enfocam o desenvolvimento da consciência fonológica?
5) A fala e escrita são abordadas de forma dicotômica?
6) Aborda os descritores da Prova Brasil?
7) O que se espera do livro didático?
8) Qual a concepção que fundamenta a construção do livro didático analisado?
9) O professor consegue reconhecer a sua concepção na abordagem trazida no livro didático?